Afluentes da Forma | Crítica de SARAKURAS

por Vendo Teatro
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Foto: Caca Bernardes

Por Luiz Diego Garcia
São Paulo, Agosto de 2026

Soterrar: verbo transitivo; encobrir com terra; ocultar, esconder, fazer desaparecer.
Dicionário Online de Português

A cidade, em sua sanha desenfreada por progresso, insiste em esconder o que lhe é ancestral. Soterram-se rios, asfaltam-se memórias, sobrepõem-se camadas de concreto àquilo que um dia fluiu livre. O ponto de partida de “SARAKURAS”, performance concebida e encenada pelas artistas Ayo Klunga e Kyra Reis no Sesc Avenida Paulista, parte justamente dessa premissa instigante: resgatar a presença sufocada do antigo Rio Saracura, curso d’água hoje invisibilizado sob o asfalto do centro financeiro do país. Trata-se de um vetor poético e político de inegável urgência, que busca entrelaçar o apagamento urbano às vivências e corporalidades de corpos negros e travestis.

Desenvolvido a partir de uma residência artística em Buenos Aires, o trabalho traz ao espaço Arte II uma proposta que recusa a narrativa linear em prol de um painel de sensações. A premissa, que, mesmo vigorosa no papel, aqui pretende articular a travestilidade como estética e linguagem política, invocando a pulsão da cultura Ballroom e a mística da dualidade dos ibejis. Klunga e Reis, que desde 2019 trilham uma pesquisa contínua sobre o corpo como território, colocam-se em cena cercadas de elementos visuais marcantes: a começar pelo tecido metálico sob o qual as performers iniciam a ação, gerando uma sonoridade metálica e ímpar ao primeiro movimento de desapegar-se do chão, além das tranças imponentes, do apuro na maquiagem e do figurino arrematado pelo contraste das botas vermelhas.

Há, sem dúvidas, uma nobreza estética e uma relevância social inquestionável na tentativa de dar vazão a essas vozes e memórias subtraídas. No entanto, o teatro, em sua dimensão viva e presencial, exige que a potência das intenções encontre respaldo na fluidez da cena. Em “SARAKURAS”, a sobreposição de signos abstratos e o rigor acadêmico-conceitual por vezes sufocam a própria experiência sensorial prometida. O uso das folhas de espada-de-são-jorge, cujas pigmentações e arranhões passam a marcar o linóleo branco com tinturas verdes e rituais, gera belos quadros visuais; contudo, o fio que conduz a performance dilui-se em meio a repetições gestuais que, em vez de instaurar o transe ou a provocação, acabam por estagnar a energia da sala.

Embora o diálogo afrodiaspórico e a denúncia do apagamento identitário e territorial sejam frentes de extrema validade, a encenação titubeia ao transformar o discurso poético em matéria cênica continuamente envolvente. O espectador, desprovido de ganchos dramáticos ou de uma dramaturgia corporal mais amarrada, vê-se diante de uma sucessão de símbolos e plásticas estéticas que parecem funcionar melhor enquanto tese ou instalação do que enquanto espetáculo. A intenção de fundir a vivência travesti e o fluxo das águas soterradas é bonita, mas o resultado em cena soa hermético, arrastando-se por escolhas formais que distanciam a plateia da comoção pretendida.

Ainda assim, num cenário cultural que constantemente tenta calar narrativas dissidentes, a existência de proposições como a de Klunga e Reis — estendida também ao campo pedagógico através das oficinas do projeto — reafirma a importância da ocupação de espaços institucionais por propostas de resistência. Criar é, por si só, um ato político, e o teatro precisa abrigar os riscos da experimentação, e ter a coragem para borrar essas fronteiras. “SARAKURAS” permanece como um manifesto válido e necessário em sua essência poética, ainda que em cena suas águas corram por um leito excessivamente árido, deixando o desejo de que essa torrente ancestral encontrasse caminhos mais férteis para transbordar.

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