Foto: Mauricio Florez
Por Luiz Diego Garcia
São Paulo, Agosto de 2026
[…]Morrer, dormir.
Só isso. E dizer que com o sono damos fim
À nossa angústia e aos mil assaltos naturais
Que a carne herdou: sim, eis uma consumação
Que cumpre ardentemente ansiar. Morrer, dormir;
Dormir, talvez sonhar […]
William Shakespeare em Hamlet
A velocidade com que a Terra gira em torno de si mesma é de aproximadamente 1.670 quilômetros por hora. Não sentimos. Habitamos o chão sem perceber a vertigem diária de estarmos todos, invariavelmente, despencando no espaço enquanto tentamos viver. Contudo, basta que a finitude cruze a porta de casa para que a ilusão de estabilidade se desfaça. Até 2024, a morte era para mim um conceito distante, quase abstrato. Foi quando perdi minha primeira avó que o véu translúcido entre a existência e o nada começou a se rasgar. Em março de 2025, minha avó paterna também partiu; em maio do mesmo ano, foi a vez de Nina, minha primeira gatinha. A Caetana se apresentou sem pedir licença, e o luto, com suas fases pontiagudas e de difícil travessia, revelou-se essa camada estranha que passa a cobrir tudo. É justamente sobre esse rasgo, e sobre a urgência de nos mantermos encantados, que se debruça o irretocável “Temporalmente Vivos”.
Em cartaz no Sesc Avenida Paulista, a montagem concebida, dirigida e atuada por Gustavo Miranda e Mauricio Flórez é um acontecimento cênico de rara delicadeza. Ao equilibrar o realismo mágico latino-americano com uma dramaturgia brilhante, assinada por Miranda, a peça se recusa a encarar a morte como o oposto da vida. O verdadeiro inimigo aqui é o desencantamento, a anestesia cotidiana. Trata-se de um texto de uma inteligência ímpar, que consegue rir da burocracia das funerárias ou das moralidades religiosas sem jamais perder o respeito pela profundeza do tema. O roteiro se constrói em enredamentos e repetições poéticas de um lirismo arrebatador, oferecendo ao espectador um banquete de reflexões ontológicas sem qualquer traço de pedantismo.
Em cena, Miranda e Flórez entregam performances memoráveis, amparadas por um rigor de fisicalidade e por partituras corporais minuciosamente desenhadas (fruto também do trabalho de preparação corporal de Flórez). O tempo cômico da dupla é preciso, matemático, alimentado pela sensível assessoria artística de Rhena de Faria. Seja no diálogo absurdo e terno entre Flórez e uma rosa vermelha; seja na agilidade com que transitam entre o trágico e o pastelão, a presença corporal dos dois atores preenche o espaço cênico projetado por Hideki Matsuka com uma vitalidade contagiante. Há uma dança invisível na forma como operam a contrarregragem, os objetos criados por Marcos Yamamoto e a iluminação desenhada por Patrícia Savoy, que ora ilumina, ora acolhe a penumbra.
É um espetáculo que afaga as nossas feridas abertas. Se a morte é a garantia da continuidade do planeta (adubo que alimenta os reencantamentos do mundo), encarar o fim deixa de ser apenas dor para se tornar, também, lembrança do privilégio que é estar aqui. Ao sair do teatro, o luto pelas minhas avós e por Nina não desapareceu, mas ganhou uma espécie de luz terna. “Temporalmente Vivos” acerta no peito porque nos lembra que, enquanto a Terra gira nessa velocidade assustadora, a nossa única urgência é não deixar o corpo anestesiar. Um trabalho impecável, necessário e profundamente humano.
