Clitemnestra Escolheu Dançar | Crítica de Réquiem SP

por Vendo Teatro
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Foto: Guto Muniz

Por Luiz Diego Garcia
Recife, Agosto de 2026

“Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis.”
(Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso, e a luz perpétua resplandeça sobre eles).
Liturgia Católica

Existem experiências cênicas que não se limitam a ocupar um palco; elas o devoram, engolem a plateia e reorganizam a própria percepção do tempo. O retorno de “Réquiem SP”, obra-prima idealizada, dirigida e coreografada por Alejandro Ahmed para o Balé da Cidade de São Paulo, é um desses raros acontecimentos de absoluto deslumbre. O espetáculo se ergue como o canto do cisne de uma cidade morta, mas paradoxalmente vibrante. Há uma sensação constante de que todos em cena estão sendo lentamente engolidos e mortos pela própria metrópole que habitam, justificando com força poética o título da obra. Ahmed transforma o ritual fúnebre em um organismo vivo, hiperacelerado e devastador, com o mesmo ritmo caótico que sufoca e move as veias paulistanas.

Assistir a esse réquiem urbano em solo paulistano acabou por escancarar, inevitavelmente, os meus próprios fantasmas geográficos. Era impossível não traçar uma ponte direta com a minha relação com o Recife: um vínculo entorpecido, dolorosamente incoerente, mas visceralmente afável. Enquanto a cena dançava a ruína de São Paulo, eu me vi submerso na memória da minha própria metrópole-ferida, essa cidade que me entorpece em sua maresia estagnada para logo em seguida me acolher com um afeto quase violento. Recife devora com a mesma cadência anestésica com que abraça; é uma contradição ambulante onde o colapso e a poética convivem no mesmo mangue, e onde o afeto daqueles que amo (e que deixo me amarem) nunca deixa de ser uma forma de sobrevivência.

A sofisticação da montagem se desenha na fricção de suas escolhas sonoras. Sob a regência irretocável de Maíra Ferreira, a Orquestra Sinfônica Municipal e o Coral Paulistano executam o denso “Réquiem” de György Ligeti com precisão, fazendo a massa acústica vibrar no peito de quem assiste. Mas a genialidade da proposta reside na ruptura: no interlúdio, a saída física dos músicos dá lugar a um ambiente esculpido pelo gotejar microfonado e timbrado no palco, preparando o terreno para o segundo ato, onde as composições eletrônicas e vertiginosas de Venetian Snares tomam o espaço. O som e a cena não apenas dialogam; eles se acoplam como próteses tecnológicas, ditando um transe que oscila entre a alta cultura erudita e o frenesi urbano do jumpstyle, do balé clássico e das danças de rua.

Visualmente, o trabalho é uma máquina de fabricar quadros cinematográficos inesquecíveis. O desenho de luz assinado por Mirella Brandi e a cenografia com controles digitais de Diego de los Campos constroem uma arquitetura móvel, onde o movimento do elenco parece ser editado ao vivo. Em meio ao virtuosismo irrefutável do elenco do BCSP, a presença da bailarina convidada Bill Valkyrie surge como um furacão. Detentora de um domínio hipnotizante da tecnologia do krump, a performer traduz em sobressaltos e espasmos corporais uma dor crua e magnética, dialogando em perfeita simbiose com a falência e a beleza do corpo coletivo.

Diante de tamanha opulência plástica e sonora, é impossível não se ver completamente absorto. Até mesmo nos momentos de aparente pausa, a tensão permanece suspensa no ar: um lembrete de que parar, nessa grande engrenagem, é apenas assistir ao colapso acontecer. Ahmed consegue a façanha de dançar a irreversibilidade da vida e os nossos rituais de perda sem cair na melancolia fácil, entregando um turbilhão sensorial onde a morte não é um fim passivo, mas o movimento final de uma cidade que nos consome enquanto canta. Um espetáculo grandioso, perturbadoramente belo e que reafirma a dança em seu ápice de força, técnica e comoção.

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