Fotografia: Giovanna Rotter
Por Luiz Diego Garcia
São Paulo, Setembro de 2025
Depois de assistir a Sybilla, a sensação não foi apenas a de ter presenciado uma peça, mas a de ter atravessado um território em que teatro e vida se interpenetram, como se numa sessão de arte-terapia. Primeiro, o espetáculo se impôs no silêncio da sala, na observação atenta do trabalho de cena; depois, na conversa com a diretora Adriana Calabró, com o assistente de direção Leo Prieto e com o elenco, pude acessar a espessura do processo criativo. Esse diálogo revelou escolhas conscientes: o uso simbólico dos gatos, a ênfase no silêncio como recurso dramatúrgico e a insistência no gesto de persistir diante das dificuldades. Foi nesse ponto que a frase de Jerzy Grotowski me veio à memória: o teatro, dizia ele, é “um encontro em que o ser humano se expõe ao outro em sua essência”. Sybilla parece materializar essa ideia ao construir um espaço em que exposição e vulnerabilidade se tornam caminho de criação.
O espetáculo se organiza em torno de dois personagens: Solange, interpretada por Stella Tobar, e Pedro, vivido por Giuliano Caratori. Eles ocupam uma oficina, lugar ao mesmo tempo concreto e simbólico, onde se desenvolve uma trama que é menos narrativa e mais processo. Nos gestos de cortar, medir, ajustar e reorganizar, os personagens constroem não apenas um objeto, mas também uma possibilidade de sentido. A cena evita a pressa, insiste no tempo da observação e permite que o público compartilhe a experiência do inacabado. É um teatro que não busca resolver, mas expor a tensão de tentar.
A cenografia, concebida por Leo Prieto em parceria com Gabriela Rossi Kohn, tem papel central nessa construção. A oficina feita de madeiras, serras e ferramentas não se limita a ser suporte visual; é, ela mesma, dramaturgia. Cada peça de madeira carrega a marca da transformação possível, cada instrumento sugere um gesto ainda por vir. O cenário é uma metáfora da condição humana: matéria instável, sujeita ao corte e à emenda, aberta ao risco da invenção. Essa leitura se confirma na forma como os atores interagem com o espaço, tornando-o um interlocutor ativo. A iluminação de Ari Nagô amplia esse campo simbólico. Ela revelar, organiza tensões, nos apresenta à gata Sybilla, mas sempre precisa e sutil, como um gato. Os momentos de claridade plena são raros e carregam a força de uma exposição súbita; as sombras, ao contrário, ocupam o palco como lembrança do que não se mostra. Esse jogo de luz e escuridão dá ao espetáculo um ritmo silencioso, como se o tempo fosse regido por respirações e suspensões.
A trilha sonora do Labsom (Kleber Marques e Julia Mauro) em parceria com Luciano Maciel e Rafael Zacchi opera no mesmo registro de contenção. Sua função não é adornar, mas expandir o espaço sensível. Em certos instantes, a música soa quase imperceptível, sustentando atmosferas que envolvem os personagens; em outros, emerge com mais intensidade, marcando pontos de virada. Sempre em equilíbrio com a cena, nunca em excesso.
No centro de Sybilla, estão as atuações. Stella Tobar, como Solange, compõe uma presença que se sustenta pela clareza e pela precisão dos gestos sinuosos, quase gatunos. Sua personagem não busca convencer pela palavra, mas pela economia e pelo silêncio. Giuliano Caratori, como Pedro, cria um personagem de múltiplas camadas, em que a força e a hesitação convivem. A relação entre ambos não se resume ao diálogo, mas se expressa nos modos de ocupar o espaço, nos ritmos de cada ação, na atenção mútua. O resultado é uma cena que valoriza a escuta e a disponibilidade, sem recorrer a excessos.
Entre os símbolos que atravessam o espetáculo, a figura do gato é soberana. Associado desde a Antiguidade à imaginação e ao mistério, o felino carrega uma dimensão de silêncio e autonomia que dialoga com a proposta da peça. No Egito Antigo, Bastet era deusa protetora do lar e da fertilidade, mas também figura ligada à noite e à introspecção. Em Sybilla, o gato é ao mesmo tempo imagem e metáfora: guardião da persistência e do sonho. Sua força está em assumir o tempo lento da criação, em insistir na ideia de que construir algo é sempre um ato de resistência. O espetáculo nos lembra de que persistir em criar, mesmo diante da incerteza, é também afirmar a vitalidade do sonho.
Ao fim, o que se leva de Sybilla não é apenas a lembrança de belas imagens, mas a percepção de que o teatro pode ser lugar de insistência, de paciência e de escuta. Uma obra que se oferece não como resposta, mas como pergunta; não como conclusão, mas como processo. O público sai tocado pela densidade da experiência. Em tempos em que o imediato domina, Sybilla insiste na delicadeza do gesto que se constrói devagar, lembrando-nos de que a criação é sempre um risco necessário e que sonhos não têm medida para quem sonha.

Que olhar aguçado, belo, atento, sensível ..muito obrigada!