Raso Riso | Crítica de Uma Noite Horripilante

por Vendo Teatro
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Foto: Divulgação

Recife, Janeiro de 2026
Por Luiz Diego Garcia

Em Recife, releituras irreverentes de narrativas clássicas, especialmente contos de fadas e arquétipos do imaginário popular, não configuram novidade nem gesto isolado. Desde os anos 1970, com o impacto radical do Vivencial Diversiones, a cena teatral pernambucana vem experimentando formas de humor queer, escatológico, político e profundamente ligado à dissidência de gênero e sexualidade. O Vivencial, sob a liderança de figuras como Luiz Fernando e com a presença histórica de artistas trans e travestis, não apenas tensionou os limites morais e estéticos do teatro brasileiro em plena ditadura, como estabeleceu um vocabulário cênico que unia deboche, erotismo, precariedade assumida e crítica social direta. Esse legado não se encerrou ali.

Nos anos 1990, a Trupe do Barulho consolidou outra camada dessa tradição, agora dialogando de forma ainda mais ampla com o grande público e com aspesctos inerentes da cultura periférica de Recife. Espetáculos como Cinderela, a História Que Sua Mãe Não Contou tornaram-se fenômenos de longevidade rara no teatro local, atravessando décadas em cartaz e formando plateias inteiras. A força da Trupe residia na precisão do tempo cômico, no diálogo direto com a cultura popular pernambucana e na capacidade de atualizar o riso sem perder de vista o contexto social em que se inseria. Trata-se de uma linhagem cênica que construiu, em Recife, uma régua alta para espetáculos que apostam no humor adulto, no exagero, na paródia de princesas da Disney e na subversão de narrativas canônicas.

Tendo em vista a régua alta do teatro conhecido pernambucano, é a partir desse chão histórico que Uma Noite Horripilante inevitavelmente se apresenta ao público recifense. Apresentada no Janeiro de Grandes Espetáculos, a proposta da obra parte de um terreno fértil. Revisitar Branca de Neve sob uma chave adulta, debochada e supostamente subversiva é um gesto já bastante explorado, mas que ainda pode render leituras afiadas quando sustentado por inteligência crítica e rigor cênico. No entanto, o espetáculo protagonizado por Suzy Brasil (drag-persona de Marcelo Souza) opta por um caminho confortável e levemente previsível, apoiando-se mais na fama da personagem e na resposta imediata da plateia do que em uma reelaboração consistente do material que manipula.

A dramaturgia assinada pelo próprio Marcelo Souza e também por Diogo Camargos aposta em uma sucessão de quadros que misturam sátira sexual, improviso e interação direta com o público. A figura da Velha Contadora de Histórias funciona como fio condutor de uma narrativa fragmentada, marcada por gags reiteradas e situações que raramente se acumulam em densidade dramatúrgica. O resultado é um espetáculo que avança aos solavancos, mais preocupado em provocar risos pontuais do que em construir um percurso cênico minimamente tensionado ou surpreendente.

Há uma tentativa clara de afastamento das leituras higienizadas do conto de fadas, especialmente as cristalizadas pelo imaginário Disney. Contudo, essa recusa da inocência não se traduz em sofisticação crítica. Em vez disso, a encenação recorre a um humor que soa batido, ancorado em clichês sexuais e em provocações que já não operam como transgressão, mas como repetição de fórmulas testadas à exaustão. O improviso, frequentemente apontado como uma das grandes virtudes de Suzy Brasil, aparece aqui de maneira irregular. Em alguns momentos, a quebra da quarta parede gera cumplicidade e ritmo. Em outros, escancara a fragilidade do material escrito e a ausência de um desenho cênico mais rigoroso. A sensação é a de um espetáculo que se apoia excessivamente na experiência e no carisma da intérprete, sem exigir dela um embate mais complexo com a cena, com o tempo ou com o próprio discurso que enuncia.

Há ainda um aspecto mais delicado e incontornável. Apesar de se apresentar como uma comédia contemporânea e consciente de seu tempo, Uma Noite Horripilante escorrega em pequenos, porém recorrentes, comentários e situações que flertam com o transfóbico, o racista e com abordagens pouco respeitosas em relação a pessoas com nanismo. São deslizes que não se apresentam como crítica, sátira ou desconstrução, mas como resquícios de um humor que parece não ter sido suficientemente revisto à luz dos debates éticos e estéticos atuais. Esses momentos produzem um desconforto que não gera necessariamente humor, mas ruído.

No campo visual, figurinos e soluções de cena cumprem sua função sem maior inventividade. A criação coletiva de cenário e iluminação revela funcionalidade, mas carece de identidade plástica mais marcante. A trilha sonora, assinada por Diogo Camargos, atua como apoio, sem assumir protagonismo ou dialogar de forma mais incisiva com a atmosfera proposta. O conjunto técnico, embora correto, raramente se articula de modo a elevar a experiência cênica.

No balanço final, Uma Noite Horripilante entrega exatamente o que promete em sua superfície, uma noite de riso fácil e caos controlado, mas falha em aprofundar sua própria proposta. Em uma cidade cuja história teatral consolidou referências fortes e inventivas nesse mesmo mote, a sensação que permanece é a de um espetáculo morno e aquém da régua estética, e também crítica, que Recife historicamente estabeleceu para esse tipo de humor e de subversão.

🔹️Vendo Teatro foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc Pernambuco e tem apoio financeiro do Governo do Estado de Pernambuco, através da Secretaria de Cultura do Estado via PNAB, direcionada pelo Ministério da Cultura – Governo Federal.🔹️

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