O Teatro, o Trabalho e a Farsa Adornada | Crítica de A Farsa da Boa Preguiça

por Vendo Teatro
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Foto: Victor Manuel

Por Luiz Diego Garcia
Recife, Agosto de 2026

É um exercício incômodo, porém honesto, admitir que não preciso nutrir afeto pela obra de Ariano Suassuna para reconhecer a grandeza inquestionável de sua arquitetura teatral. Escrita em 1960 e estruturada em três atos em verso, A Farsa da Boa Preguiça acompanha o poeta e cantador Joaquim Simão, um homem dividido entre a poesia, o ócio e as tentações da carne. Enquanto sua esposa, a dedicada Nevinha, tenta manter a casa de pé diante da miséria, Simão atrai os olhares da rica Clarabela, cujo marido, o burguês Aderaldo, cobiça justamente a modéstia de Nevinha. Sob o olhar atento de santos e demônios que comentam a ação como em um auto medieval, o texto articula um humor ágil e rimado, mas profundamente marcado por traços moralistas e por uma doutrinação católica tradicional. O desconforto que seu universo me causa reside justamente na rigidez desse tom maniqueísta, onde o riso serve como veículo para uma lição de moral estática sobre a virtude da resignação.

Essa construção conceitual ancora-se numa problemática glorificação da pobreza e num olhar amarelado e idílico sobre o Sertão. Torna-se inevitável apontar que Ariano nunca conheceu a miséria que poetizou no papel; vindo de uma abastada e influente família aristocrática da Paraíba, filho do ex-presidente do estado João Suassuna, o autor cresceu entre o latifúndio da fazenda Acauã e os casarões das elites do Recife. Sua perspectiva sobre a penúria popular e a sabedoria matuta é filtrada por sua lente fidalga e estetizada, que prefere enxergar a escassez como um purgatório poético em vez de uma violência social. Não tenho aqui a intenção de cair num discurso woke simplista, mas essa fetichização do sofrimento como dádiva espiritual revela a contradição de um autor abastado desenhando a utopia do sertanejo miserável, mas abençoado.

Essa visão de mundo encontrou seu ápice no Movimento Armorial, idealizado por Ariano nos anos 1970 para criar uma arte erudita a partir das raízes populares do Nordeste. Se por um lado o projeto resgatou xilogravuras, romances de cordel e folguedos com um apuro estético inegável, por outro ajudou a cristalizar a imagem de um Nordeste único, místico e parado no tempo. A tentativa de congelar a identidade nordestina numa essência ibérica e sertaneja me parece, hoje, uma construção datada e pouco frutífera, que reduz a pluralidade de uma região inteira a um folclore engessado. Ainda assim, debruçar-se sobre os limites ideológicos do texto e da estética de Suassuna não significa ignorar o valor de sua obra; é justamente no embate crítico com seus escritos que se pode apreciar sua inteligência verbal com olhos atentos e sem qualquer tipo de idolatria cega.

E é justamente por não nutrir especial afeto por esse material que a encenação do Célula de Teatro, sob a direção de Domingos Soares, me atrai com tamanha força. Há um abismo que separa a rejeição ideológica de uma dramaturgia do reconhecimento de um grupo capaz de extrair dela um acontecimento de raro vigor cênico: a verborragia rimada de Suassuna chega afiada, proporcional e desprovida da caricatura rasa que frequentemente assombra a cena armorial. O elenco compreende que a comicidade reside na precisão com que a Palavra habita o corpo.

Djalma Albuquerque é o grande acontecimento da noite; como Joaquim Simão, entrega uma atuação inteira, ancorada numa fisicalidade abaloada, num tempo cômico expressivo e numa doçura vocal quando empresta a voz à trilha da montagem. Paula Mendes ergue sua Nevinha em sóbrio contraponto energético, enquanto Roseane Tachlitsky faz de Clarabela um triunfo à parte ao articular matizes hilários, jogando a vaidade no chão para encarnar uma mulher rasa e hostil. O grupo opera sob disciplina admirável: Cavi Baso (Aderaldo), Karol Spinelli e José Miranda (nos tons, respectivamente, estridente e contido de arquétipos do Mal cristão) confirmam a afinação de intérpretes em absoluto estado de presença, preservando o sotaque orgânico sem jamais transformar a nordestinidade em alegoria de si mesma.

A montagem se atém a uma coerência plástica, na qual o rigor da maquiagem clownesca, os figurinos e o desenho de luz operam na mesma frequência da trilha sonora. A cenografia, embora denote certa dispersão no vasto palco do Teatro do Parque, desdobrando-se numa ocupação espacial que por vezes tensiona o ritmo em movimentações iterativas de esquerda e direita, cumpre sua função e tende a ganhar intimidade em palcos menores. As leves oscilações no ritmo do espetáculo não pertencem ao desempenho dos atores, mas sim à natureza repetitiva do próprio texto, herdeiro direto da estrutura amorfa dos autos medievais. O imaginário católico de Ariano encontra nessa cena uma materialidade física que produz vida e reação no corpo de quem assiste, expressa nas exclamações de desassossego moral do público diante dos demônios e nos bois que encerram a encenação. Há ainda um rigor digno de nota: a pontualidade. Ver a cortina se abrir às 19h30 cravadas no Teatro do Parque é uma demonstração de respeito pelo público e pelo ofício que, em tempos de atrasos naturalizados, ganha dimensão política.

E se a cenografia e a arquitetura do Parque expõem a geometria previsível da movimentação dos atores, a força maior do Célula reside na constatação de que o elenco sustentaria o espetáculo mesmo diante de um palco nu: há um artesanato cênico evidente na construção das vozes, no tempo das respostas e na escuta mútua, fruto do amadurecimento de uma companhia que construiu uma linguagem e um corpo coletivos ao longo de sua pesquisa. Saí do teatro com uma saudade represada do fazer teatral. Não se trata de uma aproximação afetiva a Ariano, mas de testemunhar um elenco entregue ao próprio jogo, capaz de uma obra de acabamento profissionalíssimo. Apresenta-se ainda nessa Farsa da Boa Preguiça uma vocação popular evidente e um apelo universal duma montagem family friendly, sustentada por personagens facilmente reconhecíveis e por uma narrativa capaz de encontrar plateias plurais sem abrir mão de sua identidade. Vejo (e desejo) esse elenco circulando pelo país, ocupando palcos de diferentes dimensões e promovendo aquilo que o teatro popular deveria fazer com frequência: chegar. A comunicação direta se potencializa nas mãos de um grupo bem preparado, e a sensação ao final da apresentação é a de que esta encenação carrega fôlego de sobra para não terminar em Recife.

Ariano escreveu uma farsa sobre a preguiça, o direito à contemplação e a recusa de uma vida inteiramente submetida ao trabalho, mas o Célula de Teatro chega a esse discurso pelo caminho exatamente oposto. A montagem é o resultado de preparação rigorosa de uma companhia que se mantém de pé pelo empenho constante. A pontualidade britânica com que se iniciou às 19h30 é apenas a camada mais visível dessa disciplina cênica. A preguiça pode até ser boa nas rimas do autor, mas o que se testemunhou no palco foi um monumento ao trabalho, ao afeto e à nobreza do ofício teatral.

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