O Barro em Latência de Pulsante Vida | Crítica de Terezinha Coração de Barro

por Vendo Teatro
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Foto: BPN

Recife, Fevereiro de 2026
Por Cleyton Nóbrega
Revisão Crítica: Luiz Diego Garcia

Ir ao teatro é, antes de tudo, um encontro. Pela cena, somos transportados a lugares imagináveis e inimagináveis; a fluência das vozes, dos sons, das músicas, dos cheiros e das cores nos impulsiona a uma verdadeira viagem interior e exterior. Vemo-nos e vemos os outros e, nesse movimento, refletimos sobre quem somos, quem fomos e até onde podemos chegar. A experiência teatral nos desloca. Há espetáculos que nos tocam de tal maneira que saímos com a sensação de alma leve e pensamentos em revoada sobre o que há de essencial na vida. Foi nesse estado que me encontrei ao assistir ao sensível e potente Terezinha – Coração de Barro, obra que entrelaça amor e arte de forma indissociável.

O espetáculo foi apresentado no Teatro de Santa Isabel, no centro do Recife, integrando a programação do 32º Janeiro de Grandes Espetáculos, edição que homenageou os 60 anos de Chico Science, músico e criador do Movimento Manguebeat — figura ímpar da cultura pernambucana. A dramaturgia é de Raphael Gustavo, com adaptação e direção de Moisés Gonçalves. No elenco estão Valéria Saboia, Severino Florêncio e Welba Sioraia. A iluminação e o design gráfico são assinados por Ivanildo Sales; a cenotécnica, por Arnaldo Honorato; a cenografia, por Aretha Luna e Moisés Gonçalves; a música original é de Carlos Alves, com percussão de Edivanci (Didão); e os figurinos, de Merielle Lino. A produção é do Grupo de Teatro Arte-Em-Cena.

O ator Severino Florêncio foi um dos artistas homenageados do festival, recebendo uma calorosa celebração ao final da apresentação. Já Welba Sioraia, mesmo sem estar em cena fisicamente, tem presença marcante: sua voz ecoa pelo teatro, compondo a dramaturgia sonora do espetáculo e provocando arrepio e emoção no público, sendo também homenageada por seus colegas e pela plateia.

Terezinha – Coração de Barro apresenta a trajetória de vida e dedicação de uma artesã profundamente ligada ao barro e à parceria com seu marido, Gonzaga, companheiro nas lidas da vida e do trabalho. O processo criativo — fundamentado na interação entre água, barro e fogo — torna-se metáfora da construção de sua identidade enquanto mulher artesã. Reconhecida como mestra do barro do Alto do Moura, Terezinha enfrentou adversidades como a pobreza, a enfermidade prolongada do marido e a inserção em um campo artístico historicamente marcado pela presença masculina.

A iluminação do espetáculo é precisa e sensível, contribuindo decisivamente para a criação da atmosfera cênica. No palco, diversas obras de arte e peças utilitárias estão dispostas e são integradas à encenação, reforçando o diálogo entre vida e criação. Os figurinos, em tons terrosos e pastéis, dialogam com a materialidade do barro, enquanto a música executada ao vivo acompanha e comenta a narrativa, costurando a trajetória da personagem-título. Em alguns momentos, contudo, o ritmo da encenação tende a se alongar excessivamente; determinadas cenas poderiam ganhar mais concisão, o que potencializaria ainda mais o impacto dramatúrgico. Ainda assim, tal escolha não compromete o conjunto da obra, revelando antes uma opção estética consciente da montagem.

Acompanhamos a apresentação envolvidos pela história de luta e força da personagem. Em um dos momentos mais intensos, a encenação aborda o tema das despedidas e do cuidado, ressaltando o valor do amor como força que sustenta a existência. Terezinha cuidou de seu esposo acamado por cerca de 25 anos, atravessou dificuldades e educou seus filhos, sustentando a família por meio da arte e do afeto. Uma das cenas mais marcantes é a aparição da santa, construída a partir da voz de Welba Sioraia, acompanhada por uma delicada projeção de luzes verdes que se espalha pelo teatro, oferecendo à protagonista consolo no momento de maior dor: a perda de seu companheiro.

Ao final, o público aplaudiu de pé por longos minutos, visivelmente emocionado. A surpresa maior foi a presença da própria Mestra Terezinha na plateia. Convidada a subir ao palco, ela compartilhou brevemente sua história e reafirmou valores que atravessam toda a encenação: a força dos afetos, o cuidado e o amor como princípios fundamentais da vida. É importante destacar que o Grupo Arte-Em-Cena é oriundo de Caruaru, no agreste pernambucano, o que evidencia a potência da cena teatral produzida para além da capital. Essa circulação contribui para oxigenar o teatro pernambucano, ampliando repertórios, olhares e formas de fruição artística.

A sensação pós-espetáculo é singular. A peça e a trajetória de vida de Terezinha Gonçalves seguem reverberando no pensamento muito depois do apagar das luzes. Terezinha – Coração de Barro é uma obra forjada na lida da vida, que merece longa existência e ampla circulação. Que muitos lugares, pessoas e corações possam ser tocados por essa história moldada em barro, amor e resistência.

🔹️Vendo Teatro foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc Pernambuco e tem apoio financeiro do Governo do Estado de Pernambuco, através da Secretaria de Cultura do Estado via PNAB, direcionada pelo Ministério da Cultura – Governo Federal.🔹️

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Ivanildo
24 dias atrás

Gratidão pelas palavras e pela crítica. Em nome do grupo, agradecemos ao vendoteatro por divulgar o nosso trabalho.

José Manoel Sobrinho
24 dias atrás

Gosto muito de ler o que o Vendo Teatro pública. Neste caso, assino embaixo os comentários sobre Terezinha, Coração de Barro. Preciso destacar o trabalho de Valéria Sabóia e Severino Florêncio, ressaltando o trabalho de Moisés Gonçalves e do Grupo Arte em Cena.

Kauan Paulino
24 dias atrás

Espetáculo maravilhoso, cheio de emoções inexplicáveis!!