Foto: Renato Michaelsohn
Por Cleyton Nóbrega
Revisão Crítica: Luiz Diego Garcia
Recife, maio de 2026
Foi quase uma saga chegar ao teatro. Depois de atravessar a cidade de um ponto a outro e chegar um tanto esbaforido ao Teatro Barreto Júnior, veio o alívio de perceber que ainda havia tempo para assistir ao espetáculo paulista A Maçã, protagonizado por William Seven. Além de ator, Seven já foi considerado o quarto melhor mágico ilusionista do mundo pela Federação Internacional de Sociedades Mágicas (FISM), em 2018, prêmio conhecido como a “Copa do Mundo da Mágica”. Seu talento e domínio da ilusão encantaram o público ao longo da apresentação.
O espetáculo integrou a programação do 10º Festival Palco Giratório no Recife e RMR, projeto nacional do Sesc voltado à circulação e à democratização das artes cênicas brasileiras. A Maçã acompanha Nicolau Souberdes, um mágico envelhecido e esquecido pelo público, que transita entre a genialidade e a loucura enquanto enfrenta os impactos do Alzheimer. Misturando teatro e ilusionismo, a peça convida o público a refletir sobre memória, afeto, envelhecimento e os efeitos da doença, tanto nos pacientes quanto em seus familiares.
Logo no início, Nicolau aparece sentado atrás de uma mesa, enquanto um telão ao fundo projeta seus truques de mágica. O palco também abriga uma segunda mesa, maçãs espalhadas e diversos objetos que, ao longo da narrativa, ganham significado cênico. A iluminação em tons frios, especialmente azul, verde e lilás, somada à sonoplastia precisa, ajuda a construir a atmosfera melancólica e confusa vivida pelo protagonista.
Em cena, Nicolau revisita fragmentos de sua vida familiar e profissional enquanto suas lembranças se embaralham devido ao Alzheimer. Frases repetidas, esquecimentos repentinos e confusões mentais aparecem lado a lado com momentos de encanto provocados pelos truques de mágica executados ao vivo. A simplicidade dos efeitos torna tudo ainda mais impressionante, aproximando o público da fragilidade emocional do personagem.
A maçã surge como importante símbolo da encenação. Associada tanto ao fruto proibido quanto à própria vida, ela representa uma memória que vai sendo lentamente mordida e devorada pela doença. A metáfora funciona de maneira sensível e poética dentro da narrativa.
Um dos poucos pontos que poderiam ser melhor desenvolvidos está na relação entre Nicolau e sua filha. Algumas falas sugerem um afastamento causado pela dificuldade de lidar com a doença, mas essa relação aparece de forma breve e um pouco fragmentada. Embora essa desconexão possa dialogar com a própria lógica confusa da memória do protagonista, faltou maior aprofundamento para tornar esse conflito emocionalmente mais claro.
Entre os momentos mais marcantes da apresentação, destaca-se a interação com uma pessoa da plateia durante um truque de cartas. Enquanto realizava a mágica, Nicolau voltava-se repetidamente para o espectador como se o estivesse reencontrando pela primeira vez, evidenciando, de maneira delicada, uma das características mais dolorosas do Alzheimer: a perda contínua da memória e da identificação das pessoas ao redor.
Instigante, sensível e visualmente envolvente, A Maçã transforma a mágica em linguagem poética para discutir memória, identidade e esquecimento. Ao final, o espetáculo deixa a sensação de que, mesmo embaralhadas pelo tempo e pela doença, certas lembranças jamais desaparecem completamente.
