Foto: Divulgação JGE
Por Cleyton Nóbrega
Recife, Fevereiro de 2026
Revisão Crítica: Luiz Diego Garcia
Pedras, Flor e Espinho é um espetáculo musical que revisita a saga da família Oliveira da Silva a partir dos desdobramentos da emboscada que culminou na morte de Lampião. A narrativa acompanha Honório e seus familiares em fuga rumo ao Recife, atravessando um sertão marcado pela violência, pela precariedade e pelo clima escaldante, mas também permeado por vínculos afetivos e pela esperança de sobrevivência. A obra aposta na articulação entre memória e ficção para construir uma reflexão sobre resistência no contexto nordestino.
Apresentado no Teatro Barreto Júnior, Pedras, Flor e Espinho integrou a programação do 32º Janeiro de Grandes Espetáculos, edição dedicada aos 60 anos de Chico Science. A presença do espetáculo no festival dialoga com a proposta de valorização de obras que articulam identidade cultural, música e experimentação, aproximando tradição e contemporaneidade no contexto pernambucano.
A encenação se apoia em um cenário que simula a paisagem sertaneja, funcionando como base visual para o desenvolvimento da narrativa. A iluminação, marcada por tons quentes — vermelhos, amarelos e alaranjados —, acompanha as mudanças de atmosfera da cena, transitando entre momentos de realismo e passagens mais oníricas. Esse desenho de luz contribui para a construção simbólica do sertão como espaço físico e psicológico da ação.
No campo musical, o elenco apresenta afinação e coesão vocal. Destacam-se as interpretações de Gabriela Melo, no papel de Dulce, pela expressividade de sua voz, e de Madson de Paula, que imprime intensidade à figura do cangaceiro “Criança”, construindo um personagem movido por vingança e tensão constante.
Um dos principais elementos de destaque do espetáculo é a presença do cavalo Pé de Jambo, boneco de manipulação direta interpretado por Thiago Augusto. A atuação se sobressai pelo rigor técnico e pela observação minuciosa do comportamento equino, conferindo verossimilhança e autonomia dramatúrgica ao boneco. Pé de Jambo não funciona apenas como recurso estético, mas como eixo estruturante da narrativa, estabelecendo vínculos entre as personagens e conduzindo o espectador por diferentes camadas da história. Em diversos momentos, a precisão da manipulação dilui a percepção do ator, fortalecendo a ilusão cênica.
Thiago Augusto também assume a interpretação de Lampião, apresentando uma composição latente e ao mesmo tempo surpreendente. A aparição do cangaceiro e de seu bando se dá de maneira fantasmagórica e surreal, criando uma ruptura no fluxo narrativo que provoca impacto visual e simbólico. Trata-se de uma das cenas mais potentes do espetáculo, tanto pela encenação quanto pela carga imagética que evoca a permanência do mito de Lampião no imaginário nordestino.
Como ponto frágil, destaca-se a qualidade do som do teatro, que em alguns momentos comprometeu a compreensão das falas e das canções, prejudicando a fruição plena da obra. Trata-se de um problema técnico que interfere diretamente na recepção do espetáculo, sobretudo considerando sua natureza musical. De modo geral, Pedras, Flor e Espinho é um trabalho consistente, que articula linguagem musical, teatro de animação e narrativa histórica para abordar temas recorrentes da vida sertaneja, como pobreza, escassez e violência, sem deixar de afirmar a força, a inventividade e a resistência do povo nordestino. O espetáculo se destaca pela inteligência cênica e pela força de suas imagens, consolidando-se como uma experiência relevante dentro da cena teatral pernambucana contemporânea.
