Anarquizando no Teatro do Parque | Crítica de Romeu e Romeu – Por Essa Nem Shakespeare Esperava

por Vendo Teatro
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Foto: Ronaldo Gutierrez

Por Cleyton Nóbrega
Revisão Crítica: Luiz Diego Garcia
Recife, Julho de 2026

Alguns espetáculos nos divertem; outros nos fazem sair do teatro pensando sobre o mundo e sobre nós mesmos. Foi com essa expectativa que fui assistir a Romeu e Romeu – Por Essa Nem Shakespeare Esperava, que chegou ao Recife após uma temporada bem-sucedida em São Paulo. Eu já sabia que a montagem aborda questões relacionadas à população LGBTQIAPN+ e propõe uma releitura de um dos maiores clássicos da dramaturgia mundial. A curiosidade estava justamente em descobrir como essa adaptação dialogaria com um público contemporâneo.

Escrito por Ronaldo Ciambroni na década de 1980, o texto impressiona por permanecer atual. Em tempos em que os debates sobre diversidade, identidade e direitos civis ocupam cada vez mais espaço na sociedade, a dramaturgia continua pertinente ao retratar as dificuldades enfrentadas por um casal gay diante do preconceito, das pressões familiares e dos conflitos inerentes à convivência amorosa.

Inspirado em Romeu e Julieta, de William Shakespeare, o espetáculo preserva o amor como tema central, mas desloca o foco para uma realidade ainda marcada pela intolerância. A montagem trata de assuntos como ciúmes, convivência, conflitos domésticos e violência simbólica sem abrir mão do humor — recurso que aproxima o público e suaviza, em alguns momentos, a dureza das situações apresentadas.

O elenco, formado por Guilherme Chelucci, Márcio Louzada, Juan Alves, Pedro Pilar e Wallace Guimarães, demonstra entrega física e boa presença cênica. A projeção vocal é consistente durante praticamente toda a apresentação, e os atores sustentam uma energia que mantém o espetáculo em constante movimento. Mesmo quando algumas coreografias não apresentam perfeita sincronia, o trabalho corporal comunica sensualidade, cumplicidade e intensidade dramática.

Tecnicamente, a montagem encontra bons aliados na trilha sonora de Eduardo Menga e no desenho de luz de Igor Franco. A iluminação trabalha adequadamente com contrastes entre luz e sombra, criando atmosferas que acompanham as mudanças emocionais da narrativa e valorizam as transições entre as cenas.

O figurino aposta na sensualidade, apresentando os atores em tangas e explorando a exposição dos corpos como parte da proposta estética da encenação. Essa escolha certamente desperta o olhar do público, mas também dialoga com a liberdade corporal e afetiva defendida pela peça, sem se limitar apenas ao apelo visual.

Uma das sequências mais contundentes da montagem é a cena em que os pais descobrem a orientação sexual do filho e reagem com discursos carregados de homofobia. O humor, presente em boa parte do espetáculo, cede espaço a uma dramaticidade que evidencia as consequências reais da intolerância. É justamente nesse momento que a peça encontra seu maior impacto emocional, lembrando que muitas histórias semelhantes ainda acontecem fora do palco.

Entretanto, nem todas as escolhas dramatúrgicas possuem a mesma força. O personagem do Diabo, por exemplo, apresenta um visual marcante, com figurinos exuberantes e uma interpretação bastante performática. No entanto, sua função narrativa permanece pouco clara. Sua presença constante, arrastando-se pelo palco e surgindo em diferentes momentos da ação, nem sempre acrescenta novos significados à história, causando a impressão de que poderia ser melhor integrada à construção dramática.

Outro aspecto que poderia ser mais equilibrado é o uso da comicidade. Em determinados momentos, a encenação aproxima-se da comédia pastelão por meio dos adereços e de alguns recursos cênicos. Embora esses elementos provoquem risos, ocasionalmente reduzem a potência dramática de conflitos que mereciam maior densidade emocional.

Um aspecto interessante da sessão foi observar a própria plateia. O Teatro do Parque estava repleto de casais homoafetivos, pessoas de diferentes gerações, etnias e classes sociais, formando um público diverso que parecia reconhecer parte de sua própria história na narrativa apresentada. Essa identificação reforça a importância de espetáculos como Romeu e Romeu, que ampliam a representatividade e transformam o teatro em espaço de encontro, acolhimento e reflexão.

Mais do que propor uma releitura de Shakespeare, a montagem questiona a permanência de preconceitos que continuam interferindo na vida de milhares de pessoas. Sua maior qualidade está em lembrar que o amor, independentemente da orientação sexual ou da identidade de gênero, continua sendo um dos sentimentos mais universais da experiência humana.

Romeu e Romeu – Por Essa Nem Shakespeare Esperava não é um espetáculo perfeito. Algumas escolhas de direção poderiam ser mais precisas e certos personagens mereceriam uma função dramatúrgica mais consistente. Ainda assim, trata-se de uma montagem vigorosa, divertida e necessária, capaz de provocar risos, emoção e reflexão na mesma medida.

Ao final da apresentação, saí do Teatro do Parque com a sensação de que o espetáculo alcança seu principal objetivo: fazer o público imaginar um mundo em que o preconceito deixe de determinar o destino das pessoas e em que o amor possa, finalmente, escrever um final diferente. Que Romeu e Romeu continue ocupando palcos pelo país e estimulando diálogos cada vez mais necessários sobre respeito, diversidade e humanidade.

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