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O musical “Capiba, pelas ruas eu vou”, apresentado no Teatro RioMar Recife, celebra a vida e a obra de Lourenço da Fonseca Barbosa, o Capiba – apelido que significa “jumento teimoso” e reflete sua personalidade obstinada e genial. Nascido em 1904, em Surubim, Pernambuco, Capiba veio de uma família de músicos e tornou-se um ícone da cultura brasileira, mesclando tradição e vanguarda em sua obra, que vai de marchinhas carnavalescas a peças eruditas, como a Missa Armorial. Sua música “Maria Betânia”, gravada por Nelson Gonçalves em 1945, foi tão popular que inspirou o nome da irmã de Caetano Veloso e até causou um incidente curioso envolvendo um marinheiro americano no Recife. Capiba também foi pioneiro no maracatu, com clássicos como “É de Tororó”, e deixou um legado de mais de 200 canções que continuam a emocionar.
A peça, dirigida por Cecília Brennand e com direção musical de Rosemary Oliveira, busca capturar essa grandiosidade criativa, apresentando ao público um espetáculo que mescla teatro, dança, música, canto, coral, cinema e fotografia. Com mais de 60 artistas em cena, entre bailarinos-cantores e músicos, a produção é, sem dúvida, um esforço monumental. No entanto, apesar de seus muitos méritos, o musical acaba pecando por uma falta de unidade narrativa e uma amarração frágil, que dificultam a imersão do espectador na história de Capiba e na riqueza de sua obra. Talvez essa fragmentação seja, de certa forma, um reflexo da própria personalidade teimosa e multifacetada do homenageado, que nunca se prendeu a um único estilo ou formato. Mas, enquanto na música de Capiba essa diversidade se unia em uma harmonia singular, no espetáculo ela parece mais dispersa e desconexa.
Logo de início, é preciso reconhecer o talento e o esforço dos artistas envolvidos. Os bailarinos-cantores são virtuosos, demonstrando uma técnica impressionante e uma energia contagiante. As cenas musicais, em particular, são momentos de muita técnica e frenesi, com coreografias bem elaboradas e performances vocais que arrancam aplausos. A Missa Armorial, um dos pontos altos da peça, é executada com maestria, trazendo à tona toda a profundidade emocional e espiritual da obra de Capiba. A orquestra de câmara, ao vivo, também merece destaque, criando uma sinergia poderosa com os demais elementos do espetáculo. No entanto, esses momentos de brilho são frequentemente interrompidos por uma narrativa que não consegue sustentar o próprio ritmo. O roteiro, que se propõe a contar a história de Capiba, acaba se perdendo em uma sucessão de cenas que, embora individualmente interessantes, não se conectam de forma robusta e encorpada. A transição entre os diferentes gêneros artísticos – teatro, dança, música, cinema e fotografia – é muitas vezes abrupta, criando uma sensação de desconexão que dificulta a imersão. A peça carece de uma linha narrativa mais clara, algo que dê sentido ao conjunto e guie o espectador por uma jornada emocional mais coesa. Enquanto algumas cenas são emocionantes e bem executadas, outras parecem deslocadas, como se houvesse a tentativa de abraçar demais e acabado por perder o foco, deixando o trabalho fragmentado.
O uso de projeções de cinema e fotografias, embora tecnicamente bem executado, também contribui para essa sensação de dispersão. Esses elementos, que poderiam enriquecer a narrativa, acabam parecendo mais um adereço do que uma parte integral da história. Eles ajudam a retratar a cultura pernambucana, mas não conseguem aprofundar o diálogo entre o passado, o presente e o futuro, como prometido. O guarda-roupa, assinado por Beth Gaudêncio, é visualmente deslumbrante e reforça a estética colorida e vibrante da peça, deixando sua marca no palco e na plateia.
Em suma, “Capiba, pelas ruas eu vou” é um espetáculo que celebra o talento incontestável de seus artistas e a beleza de suas cenas musicais. Para os fãs de Capiba e da cultura pernambucana, há muito a se apreciar. A peça é uma homenagem vibrante à vida e à obra de um artista que, com sua teimosia e genialidade, deixou um legado imenso. E isso, por si só, já é motivo suficiente para assistir. “Capiba, pelas ruas eu vou” é, no fim das contas, uma celebração digna a um gênio da música brasileira, que, mesmo em suas imperfeições, se fez longevo e imortal – assim como o jumento teimoso que carregava em seu nome e em sua alma.
Vendo Teatro – Incentivo Funcultura 2022/2023
Proponente, coordenadora e criadora de conteúdo: Aline Lima
Produção Executiva: Sabrina Pontual
Críticos teatrais: Luiz Diego Garcia
Cleyton Nóbrega
Lucas Oliveira
Gabrielle Pires
Coordenador crítico: Luiz Diego Garcia
Jornalista: Paulo Ricardo Mendes
Designer Gráfico: Allan Martins