Recife is Burning | Crítica de Gongada Drag

por Vendo Teatro
247 visualizações

Foto: Divulgação

Por Luiz Diego Garcia
Recife, Novembro de 2025

“Shade comes from Reading. Reading came first. Reading is the real artform of insult. You get in a smart crack and everyone laughs and ‘hee hees’ because you found a flaw and exaggerated it, then you’ve got a good read going”
Dorian Corey em “Paris is Bruning”

Que a arte drag opera como dispositivo de fabulação, insurgência e memória coletiva já não é novidade. Entretanto, poucas criações conseguem tensionar, em cena, a potência dessa herança com o risco permanente de sua dispersão como produto descartável do entretenimento rápido. Gongada Drag, em suas passagens incendiárias pelo Teatro RioMar, não se apresenta apenas como mais uma edição de um fenômeno de público; inscreve-se como acontecimento que amalgama comédia, performatividade e uma historiografia LGBTQIAPN+ oferecida ao público em regime de espetáculo; e, por isso mesmo, em inevitável estado de fricção.

O show, idealizado e conduzido por Bruno Motta, bebe da tradição do roast: esse rito de escárnio consentido, em que corpos e trajetórias são gongados diante da plateia num pacto tácito entre vulnerabilidade e triunfo. Mas, em solo pernambucano, essa gramática ganha camadas adicionais: trata-se, afinal, de um encontro com décadas de resistência cultural, num estado cuja cena transformista foi erguida à força de riso, de transgressão e de uma teimosia corporal que insiste em existir mesmo quando tudo ao redor parece conspirar contra.

É nesse terreno que se inscreve a homenagem à icônica Salário Mínimo, uma das figuras fundadoras da arte drag pernambucana e corpo-memória que atravessa gerações: da Trupe do Barulho ao personagem inesquecível Cachorrinha Xôla. Celebrar suas quatro décadas de carreira não é apenas reconhecer uma artista influente; é convocar o público a revisitar uma linhagem de comicidade LGBTQIAPN+ que, antes de virar “nicho pop”, era trincheira de sobrevivência. Assistir Salário em cena é testemunhar uma herança viva: cada gesto, cada olhar enviesado, cada torção do deboche reaviva uma cronologia política que o Brasil insiste em esquecer.

O elenco reúne Suzy Brasil, Hellena Malditta, Sayuri Heiwa, Magally Mell, Vagiene Cokeluche e Luciano Rundrox, cada qual trazendo uma forma particular de lidar com o jogo cômico. O resultado é um painel diversificado de registros, que varia entre humor mais físico, ironias de cunho social e improvisos dirigidos ao público. O espetáculo se beneficia dessa multiplicidade, já que evita uma uniformização estética e mantém o ritmo da noite em constante variação. A condução de Bruno Motta dá coesão ao conjunto: ele organiza as transições, contextualiza algumas situações e estabelece a moldura básica do formato.

Há, no entanto, uma camada que merece atenção especial; e que constitui talvez o gesto mais potente da noite. Gongada Drag articula, de forma orgânica, um conteúdo político-pedagógico sobre a história LGBTQIAPN+ no Brasil. Não como discurso panfletário, mas como dramaturgia do encontro: cada artista, ao revisitar eventos, personagens e violências que marcaram a comunidade, inscreve o público numa espécie de aula vivo-performativa. Há algo profundamente precioso no modo como o espetáculo convoca genealogias apagadas, recupera marcos esquecidos e reinscreve trajetórias marginalizadas no corpo vibrátil da cena. É um teatro que educa sem didatismo, que historiciza sem rigidez, que politiza sem perder o riso, e isso, por si só, já constitui uma vitória estética.

Como todo terreno onde o humor opera, há também fendas. Em alguns momentos, certas piadas avançam para zonas menos férteis e mais perigosas. Deslizamentos que tangenciam estereótipos raciais ou insinuações transfóbicas, ainda que inseridos no pacto cômico do roast, friccionam com o próprio tecido político que o espetáculo se propõe a celebrar. Se a arte drag é, entre outras coisas, dispositivo de enfrentamento às opressões, é preciso cuidado para que a retórica da ofensa consentida não se converta, inadvertidamente, em reprodução das violências que pretende criticar. O show é maior que esses lapsos; muito maior. Mas reconhecer tais ruídos é parte fundamental de uma crítica que se recusa ao aplauso acrítico e reivindica responsabilidade estética no mesmo grau em que celebra ousadia.

Bruno Motta, enquanto anfitrião, funciona como eixo de articulação dessa arquitetura cômica. Sua condução é ágil, seu senso de ritmo é calibrado, e sua presença em cena estabelece a moldura necessária para que o caos performativo das queens se transforme em narrativa, e não em dispersão. Motta compreende que o roast não é apenas licença para o ataque, mas sobretudo exercício de afeto: rir de alguém é também reconhecer sua importância. E é justamente nesse jogo entre afeto e ferocidade que a noite encontra sua temperatura mais alta.

A direção e a dinâmica do espetáculo, embora baseadas em estrutura aberta e intercambiável, revelam precisão na administração das entradas, nos tempos de resposta e, sobretudo, na capacidade de transformar cada participação em evento singular. No fim, Gongada Drag não é apenas mais um show de humor drag. É ritual. É documento. É festa política. A noite no teatro confirma a força de um formato que dialoga com tradições globais do roast, mas o reterritorializa sob a lente brasileira e, sobretudo, nordestina; onde riso e resistência caminham sempre de mãos dadas. O espetáculo reafirma que a arte drag do Brasil não é mero entretenimento: é campo de batalha simbólico, é arquivo vivo, é lugar de disputa e celebração. E, como toda boa celebração, deixa o público rindo, vibrando e pensando. É nesse intervalo entre o riso e a reflexão que a Gongada Drag encontra sua grandeza.

Este projeto foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc Pernambuco e tem apoio financeiro do Governo do Estado de Pernambuco, através da Secretaria de Cultura do Estado via PNAB, direcionada pelo Ministério da Cultura – Governo Federal.

Inscreva-se
Notificar se...
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments