Foto: Divulgação
Por Luiz Diego Garcia
São Paulo, Setembro de 2025
Arrepiado e marejado, assisti ao musical Dreamgirls, em cartaz no Teatro Santander, que não se apresenta como simples reprodução de um clássico da Broadway, mas como acontecimento teatral que tensiona, em solo brasileiro, representatividade, espetáculo e memória cultural. Sob a direção de Gustavo Barchilon, a montagem recusa o desleixo de um pastiche luxuoso e alcança potência justamente no entrechoque entre herança e reinvenção, entre reverência e insurgência, entre a preservação da matriz estrangeira e a busca por uma assinatura própria.
A narrativa, já célebre por radiografar a escalada meteórica e a subsequente ruína de um trio feminino de R&B nos anos 1960 e 70, ultrapassa o estatuto de “musical biográfico” e se afirma como alegoria do próprio show business: máquina devoradora que fabrica ídolos com a mesma voracidade com que os descarta. O arco de Effie White, Deena Jones e Lorell Robinson opera, assim, como prisma crítico por meio do qual se projetam questões de raça, gênero e poder em um mercado que, ao mesmo tempo em que exalta corpos negros, empenha-se em controlá-los, diluí-los ou substituí-los.
Nesse contexto, a presença de Letícia Soares como Effie White constitui um gesto político e artístico de monumentalidade. A intérprete não apenas encena uma personagem dividida entre ambição e exclusão; encarna, sobretudo, um paradigma de corpo e voz negros projetados para o primeiro plano, insurgindo-se contra séculos de silenciamento. Sua entrega em “And I Am Telling You I’m Not Going” transcende a catarse melódica e ressoa como afirmação identitária, como grito que ultrapassa os limites do palco para inscrever-se no tecido da memória coletiva.
Laura Castro e Samantha Schmütz completam o triângulo de protagonismo em registros complementares, sem sobreposição. Castro empresta à sua Deena uma vulnerabilidade sofisticada, modulando o peso da ascensão sob a tutela manipuladora de Curtis Taylor Jr., interpretado por Toni Garrido em chave que mescla charme, cinismo e uma abordagem um pouco tímida na sua matriz de interpretação. Schmütz, por sua vez, oferece uma Lorell Robinson que oscila entre comicidade e doçura, sem jamais resvalar na caricatura. Já Reynaldo Machado, como Jimmy Early, atinge um dos ápices da noite: sua fisicalidade expansiva condensa a herança performática de James Brown e Little Richard, mas o faz com frescor inventivo que impede o gesto de tornar-se simples homenagem.
A engrenagem criativa sustenta o vigor da montagem. A condução de Gui Leal, à frente de uma orquestra de vigor notável, merece menção autônoma. A regência não se limita a sustentar os números: transmuta a partitura em experiência quase sinfônica do soul, em que cada ataque dos metais soa como incisão precisa, cada arranjo vocal se enraíza em harmonias que transitam entre o sacro e o profano. O diálogo orgânico entre músicos e palco confere aos números dimensão litúrgica, na qual a orquestra emerge como verdadeiro protagonista coletivo, incandescendo o drama e ampliando-o para além de suas bordas narrativas. As coreografias de Rafa L, embora ancoradas em convenções do gênero, surpreendem pelo fôlego e pela maneira como alargam o espaço cênico, convertendo o ensemble em corpo coletivo em estado permanente de ebulição.
A cenografia, de proporções monumentais, constitui vértice da imponência estética da montagem. O espaço, ora geométrico e austero, ora voluptuoso e saturado de luz, não apenas acompanha a escalada das protagonistas, mas a dramatiza em termos visuais. Painéis móveis, jogos de projeção e variações lumínicas instauram plasticidade quase cinematográfica, fazendo de cada quadro uma pintura viva destinada a condensar tanto o fulgor do soul quanto o peso esmagador da indústria cultural. Não se trata, portanto, de mero pano de fundo: o cenário converte-se em campo de tensão, onde intimidade e espetáculo, corpo e máquina, se enfrentam em escala grandiloquente.
Dreamgirls impõe-se, assim, como marco no teatro musical brasileiro não apenas pelo requinte artístico, mas sobretudo pelo gesto simbólico que carrega. Ao reinscrever corpos, vozes e histórias negras no epicentro da cena, ultrapassa a mera reprodução de um cânone estrangeiro: transforma-o em narrativa de resistência e triunfo, convocando o público a celebrar, refletir e comover-se diante de um espetáculo que pulsa simultaneamente como festa e como denúncia.
