Foto: Divulgação
Por Luiz Diego Garcia
São Paulo, Setembro de 2025
A estreia da ópera Édipo Rei, de Luciano Camargo, no último dia 26 de setembro, no Teatro Bradesco, é um gesto de ousadia rara no panorama lírico brasileiro: apresentar uma obra inédita em português já é, por si só, um feito digno de reconhecimento. Ainda assim, a experiência deixa uma sensação ambivalente, como se a grandiosidade do projeto se embrenhasse em si mesma, tropeçando em excessos que, por vezes, ofuscam, em vez de iluminar, o drama que pretende encarnar.
O mito de Sófocles que inspira a obra acompanha Édipo, um homem marcado por premonições celestiais, cuja vida é atravessada por inevitabilidades. A narrativa explora conflitos entre poder e limitação, conhecimento e ignorância, convidando o público a refletir sobre forças que moldam a existência humana. É um mito profundamente dramático, que exige que música e encenação sustentem seu peso e intensidade; e é justamente nesse ponto que a ópera oscila.
A composição de Camargo é exuberante, mas por vezes se dispersa. Certos interlúdios e motivos recorrentes prolongam-se de maneira que, embora lírica, a música às vezes se alonga em passagens repetitivas e redundantes, criando a sensação de que o espetáculo gira sobre si mesmo sem avançar. Essa prolixidade gera uma estagnação dramática: o público percebe a ambição da obra, mas em alguns trechos a narrativa e a tensão parecem dar voltas longas, sem que se note progressão real. A tentativa de modernidade acessível, que mescla ecos de Wagner e respingos de Puccini, é perceptível, mas não sedimenta a potência singular que o mito exige.
Momentos de estranheza surgem, como a inserção do Hino Nacional e da música Evidências, imortalizada na voz de Chitãozinho & Xororó, que, embora conhecidas do público, rompem abruptamente a atmosfera da ópera e cria um efeito de deslocamento. Se a intenção era aproximar a obra do público, o efeito é ambivalente: por um lado, denota ousadia; por outro, flerta com o caricatural, deixando uma sensação de deslocamento. São riscos que, ainda que questionáveis, revelam a busca por expandir a linguagem operística para territórios inesperados.
A direção cênica de Rodolfo García Vázquez é funcional e elegante, mas por vezes plana. Os espaços delimitados por cortinas longas e claras oferecem clareza visual, mas não dialogam profundamente com a intensidade emocional do mito. O coro, que exprime a pulsação coletiva da cidade, surge mais como elemento ornamental do que como força dramática. A iluminação de Guilherme Bonfanti, embora pontualmente segura, recorre a um branco contínuo, projeções e tons vermelhos que, infelizmente, não funcionam plenamente, deixando as cenas achatadas e privadas do impacto dramático que a narrativa exigiria. O figurino, assinado por Amanda Pilla B. e Samantha Macedo, alterna momentos de criatividade e imaginação com outros que soam menos refinados. Em algumas cenas, a escolha das peças transmite elegância e ajuda a delinear os personagens, mas há instantes em que os trajes parecem ter tido uma execução rudimentar, destoando da grandiosidade que a ópera pretende imprimir. É uma imperfeição perceptível, mas que, curiosamente, também confere ao espetáculo um caráter humano e artesanal, lembrando que, mesmo em projetos ambiciosos, nem todos os elementos se harmonizam com perfeição.
No elenco, Joyce Martins brilha como Jocasta, imprimindo à personagem presença vocal e cênica que sustenta a tensão e a emoção mesmo quando a encenação é contida. Já Jábez Lima, no papel de Édipo, opta por uma interpretação introspectiva que, se por um lado confere elegância, por outro suaviza o peso trágico do protagonista. O Coral Cidade de São Paulo demonstra disciplina e entusiasmo, mas nem sempre consegue traduzir sua energia em impacto dramático pleno, funcionando mais como massa do que como voz viva do destino coletivo.
O saldo final é mais decepcionante do que inspirador. Édipo Rei se propõe monumental, mas em muitos momentos se perde em suas próprias aspirações: longas passagens repetitivas, escolhas musicais e cênicas junto a um ritmo irregular tornam a experiência cansativa e fragmentada. A ambição da obra não se traduz em coerência dramática nem em impacto real, deixando o público mais confuso do que envolvido. Embora seja possível reconhecer a coragem de tentar algo inédito no panorama lírico brasileiro, a sensação que permanece é a de uma ópera que tropeça constantemente em sua própria grandiosidade, deixando mais impressões de frustração do que de emoção ou beleza duradoura.
