Liberdade em Trânsito! – Crítica do Espetáculo “Hblynda em Trânsito”

por Vendo Teatro
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Foto: Divulgação

Quarta-feira, teatro na cidade, casa cheia, uma afirmativa: “O espetáculo é potente!!”. Bruninha me falava faltando uns quinze minutos para começar. Não tive escolha, criei expectativa e entrei. O espetáculo é uma obra-prima e um grande exemplar da tendência contemporânea das artes cênicas. Elabora-se a partir da autorreferenciação de HBlynda Morais, que é atriz, dramaturga e produtora, e a partir de si discute, neste espetáculo, a existência neste mundo que compartilhamos hoje.

A atriz se joga do penhasco do mundo ao chão do palco do Hermilo Borba Filho, rasga-se e nos traz aos sentidos suas histórias, sua intimidade, sua ancestralidade, sua família; suas reflexões sobre si e sobre o mundo, sobre sua identidade e o que isso implica a si nos seus processos de existir.

Através de sua história, nós podemos nos conectar com tantas outras histórias que também perpassam a vida de quem assiste ou de alguém que conhecemos. Por mais que seja muito específica e única a vida de HBlynda, ali, naquela dimensão do palco, nós partimos dela para pensar a coletividade do mundo, o que é gênero, a escola, as normas sociais.

HBlynda entrega um belo trabalho físico, principalmente na construção de imagens que contribuem para o acontecimento do espetáculo e na forte e diversa presença de seu/sua corpo/corpa. A atriz desafia as normas pré-estabelecidas a si de várias formas: no jeito que usa a saia, na forma de riscar o batom, no esbaldar-se, no gargalhar, pela palavra-corpo-voz, na libertação epistêmica de anos e anos de aprisionamento, de gerações e gerações silenciadas. Ela não é mais ela somente. Da plateia, a gente percebe que ela é todes que vivem nela e com ela.

A construção da iluminação só ressalta a potência do espetáculo, com as marcas de um trabalho cuidadoso de Cleison Ramos, assinado principalmente pela sensibilidade de iluminar uma história e pelo uso dos lasers, que compõem junto com a atriz imagens muito interessantes. Essas imagens imprimem uma estética cibernética, transtemporal, de movimento e transformação, algo que essas palavras não definem por completo, mas que leva o público justamente ao que o espetáculo propõe: a ideia de existir em possibilidades, em transformações, em trânsito.

A sonoplastia propõe uma estilística que também vai além. Acredita em inovações ao explorar, por exemplo, através dos ruídos e sons cotidianos, às vezes tão tênues que fogem da nossa percepção, a relação da atriz com seus divinos. Formas do existir cronístico despertam uma sensibilidade e adicionam camadas de subjetividade à cena, com muito equilíbrio, e nos levam a construir uma experiência musical muito interessante no decorrer da obra.

A autorreferência é uma premissa para o enredo e, mais uma vez, ressalto como é muito importante, potente, curadora, transformadora e libertadora a democratização das histórias, principalmente as de corpos dissidentes. Existir e reafirmar a nossa existência é a maior forma de transgredirmos as violências epistêmicas causadas pelo sistema colonial que persiste em nossa cidade, em nosso estado e no resto de toda a América Latina.

Meus mais sinceros desejos de que esse espetáculo tome os palcos de todo o Brasil e de outros países, para que muitas pessoas vejam a qualidade artística do que estamos produzindo no Recife, e para que cada vez mais histórias sejam contadas, e mais existências e vozes sejam reafirmadas através dessa tecnologia que tanto nos leva ao trânsito chamada Teatro.

Vendo Teatro – Incentivo Funcultura 2022/2023
Proponente, coordenadora e criadora de conteúdo: Aline Lima
Produção Executiva: Sabrina Pontual
Críticos teatrais: Luiz Diego Garcia
Cleyton Nóbrega
Lucas Oliveira
Gabrielle Pires
Coordenador crítico: Luiz Diego Garcia
Jornalista: Paulo Ricardo Mendes
Designer Gráfico: Allan Martins

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Maria Betânia Silva
6 meses atrás

Muito importante e alentador saber que o teatro produzido no Recife vai na direção de reafirmamos a “nossa existência” transgredindo as violências epistêmicas causadas pelo sistema colonial. Nesse sentido, vamos nos afirmando soberanamente. Parabéns a todos que contribuíram com esse projeto. O público pernambucano agradece.