Cordel de Retalhos – Crítica de “Ave, Guriatã”

por Vendo Teatro
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Foto: Divulgação

O grupo de artistas em formação do Curso de Interpretação para Teatro, curso profissionalizante e em seu último semestre formativo, do Sesc Santo Amaro, monta a dramaturgia “Ave, Guriatã”, escrita por Robson Teles e inspirada na obra “Um Cordel para Menino”, de Marcus Accioly, para os palcos recifenses. Chegando em temporada com a intenção de mergulhar o público em um universo lírico, atravessado por memórias, ancestralidades e pela musicalidade do cordel, o espetáculo propõe, como último e profissional experimento cênico, uma montagem que examina o espaço de convivência, a troca de saberes e a celebração da cultura brasileira, direcionando-se tanto a crianças quanto a jovens e adultos.

O espetáculo ancora-se em matrizes estéticas fortemente ligadas à tradição popular nordestina, sobretudo o cordel, a música e a visualidade armorial. O Movimento Armorial, idealizado por Ariano Suassuna nos anos 1970, buscava fundir elementos da cultura erudita e popular, propondo uma arte brasileira de raízes próprias, com forte diálogo entre literatura de cordel, xilogravura, música e teatro. Ao mesmo tempo, a dramaturgia evoca o imaginário lírico e simbólico presente na obra de Marcus Accioly, cuja poesia explora a infância, a memória e a ancestralidade. Essa base artística oferece um terreno fértil para o espetáculo, ao mesmo tempo que cria um desafio: traduzir tais referências de modo vivo e acessível para a cena contemporânea.

A proposta é, em essência, ambiciosa: reunir teatro, música e poesia em um mesmo corpo cênico. O texto, embebido de imagens oniricamente poéticas, busca convocar a plateia para uma jornada de autodescoberta e pertencimento, seguindo os passos de uma criança em transformação. Entretanto, no percurso dessa construção, a encenação acaba encontrando dificuldades em conciliar forma e conteúdo.

A dramaturgia, embora rica em intenções, por vezes se mostra excessivamente densa e dispersa, o que fragiliza o convite feito ao público mais jovem. A narrativa se apresenta fragmentada, com passagens que se sucedem sem um fio condutor claro, apesar de imageticamente esforçada, o que compromete a imersão na trajetória da protagonista. Em alguns momentos, o espetáculo parece mais preocupado em acumular imagens do que em transformá-las em ação dramática palpável. O resultado é um percurso que oscila entre lampejos de sensibilidade e trechos em que a atenção da plateia tende a se perder.

No aspecto visual, a peça tampouco atinge o impacto aparentemente desejado. O trabalho artesanal de confecção de objetos, adereços e cenografia artística revela dedicação, todavia o conjunto cênico não chega a encantar. Os figurinos demonstram esmero individual, só que não se articulam de maneira coesa com a proposta lírica do texto; não saltam aos olhos em sua paleta de cores, deixando a configuração visual do espetáculo ainda mais amornada. Falta-lhes um fio estético mais consistente, que dialogue mais veementemente com a atmosfera do cordel, do universo simbólico da criança em transformação. A maquiagem do espetáculo também busca tentar uma evocação de um lirismo próximo à paleta das cores da bandeira nacional e do próprio movimento armorial, sugerido pela dramaturgia e pela própria matriz cultural da obra de Accioly, contudo aparece de forma tímida e pouco notável. O desenho cênico carece de robustez, de maior ousadia plástica que pudesse traduzir em imagem a poesia do texto. O resultado, em vez de amplificar a força da narrativa, acaba por atenuá-la.

Quanto ao elenco, é possível notar empenho e entrega, ainda assim nem sempre estão estes aspectos alinhados à especificidade do público-alvo. Salvo algumas exceções, as pessoas em cena se mostram intérpretes que parecem pouco familiarizadas com o universo da infância e da juventude, o que enfraquece a comunicação imediata com a plateia. A dicção poética, e também, por vezes, o canto, exige leveza e olhar lúdico, mas aqui e ali surge engessada, mais próxima de uma declamação formal do que de um jogo teatral vivo e acessível. Esse distanciamento prejudica a criação de pontes afetivas com o público, sobretudo com as crianças, que exigem espontaneidade, escuta e flexibilidade no trato cênico.

Importante ressaltar, entrementes, o esforço coletivo que sustenta a produção. A presença de música original, a dedicação artesanal do elenco em confeccionar parte do material cênico e o trabalho colaborativo de tantas mãos são valores que dão corpo ao espetáculo e demonstram compromisso com o fazer teatral. No balanço geral, “Ave Guriatã” não encontra o equilíbrio entre a potência da obra de referência e a sua tradução para o palco. O resultado final é um espetáculo que é, sim, marcado por intenções nobres e por uma equipe empenhada, mas carece de maior clareza narrativa, de coesão estética e de um diálogo mais afinado com seu público. “Ave Guriatã” é um voo que tenta alçar altura e, pela falta de unidade e pela fragilidade em algumas de suas escolhas visuais e interpretativas, acaba pairando mais próximo do chão do que poderia.

Vendo Teatro – Incentivo Funcultura 2022/2023
Proponente, coordenadora e criadora de conteúdo: Aline Lima
Produção Executiva: Sabrina Pontual
Críticos teatrais: Luiz Diego Garcia
Cleyton Nóbrega
Lucas Oliveira
Gabrielle Pires
Coordenador crítico: Luiz Diego Garcia
Jornalista: Paulo Ricardo Mendes
Designer Gráfico: Allan Martins

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