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Muito se pode refletir sobre o que significa fazer teatro e Roubando a Cena parece surgir como resposta a essa pergunta. Mas uma resposta que se oferece em forma de ação, de urgência, de riso, suor: invenção. A peça da companhia recifense, dirigida e idealizada por Camila Bastos, não apenas representa o fazer teatral, ela o desnuda, questiona, celebra. E o faz com tanto brilho nos olhos e tesão de cena, que é impossível sair ileso da experiência.
Na trama, um grupo de teatro à beira da falência e prestes a perder sua sede resolve assaltar um banco. Pronto. Temos um ponto de partida digno de uma comédia farsesca. Mas é no modo de contar essa história que Roubando a Cena revela sua profundidade. Porque a peça não está interessada em simplesmente entreter com o absurdo da premissa, mas sim em nos arrastar para dentro do próprio dilema que atravessa tantos coletivos artísticos: como continuar criando em meio à escassez, à precariedade e ao abandono institucional?
É cambaleando entre a sátira e a sinceridade que o espetáculo se arma. E aqui, cada recurso cênico vira estratégia de sobrevivência, de invenção e de denúncia. O cenário evoca um espaço híbrido entre ensaio e resistência. Tudo ali soa como provisório, mas nada é improvisado. Cada paninho, cada cano, cada gesto é proposital, e ainda assim carrega a leveza de quem se equilibra num fio de incertezas sem perder a poesia do passo.
Camila Bastos e Jãvi Lima assinam uma dramaturgia que recusa qualquer fórmula fácil. O texto caminha entre metalinguagem, crítica social e afetos sinceros com uma inteligência que não subestima seu público. A peça não tem medo de rir da desgraça, mas também não recua diante da melancolia. É uma dramaturgia que conhece o valor de sua história, mas que entende, acima de tudo, que o teatro acontece no como se conta.
E é aí que o espetáculo brilha: na escolha de não encenar um assalto, mas de performá-lo teatralmente. O grupo não rouba o banco, rouba a cena, como o título antecipa. E nesse roubo há beleza, há musicalidade, há coletivo. Há coragem. A encenação convoca o público a ser cúmplice do ato. E não é disso que o teatro vive, afinal? Do pacto silencioso entre quem faz e quem assiste?
Então também nada disso se sustenta sem o elenco. E o que se vê em cena é entrega: Brenda Lima, Clara Lucena, Gil Paz, Jãvi Lima e a própria Camila Bastos formam um coletivo que vibra junto. O jogo cênico se constrói a partir da diferença, da escuta, da presença radical. Ninguém tenta brilhar sozinho, e por isso todos brilham muito. É particularmente de encher os olhos a dinâmica de gato-e-rato entre Gil Paz e Clara Lucena, a dupla se destaca na química borbulhante.
É inevitável pensar no que esse espetáculo provoca em quem faz teatro, e também em quem nunca pisou num palco. O teatro, aqui, não é um tema: é um modo de existir. Um lugar de comunidade, de insistência, de reinvenção. Um lugar de risco. Porque sim: Roubando a Cena é um espetáculo perigoso. Ele pode te fazer sair do teatro querendo mudar as coisas. Ou pior: querendo fazer teatro também.
E talvez seja esse o maior assalto do grupo: nos roubar o conformismo. Nos lembrar que ocupar um espaço de criação, hoje, é um ato profundamente político. Que o teatro não acontece apenas em edifícios históricos ou grandes festivais, mas também em espaços prestes a serem demolidos, em galpões com goteira, em praças sem iluminação. Onde houver desejo de cena, há teatro.
No fim, Roubando a Cena nos devolve algo que nem sabíamos que tínhamos perdido: o encanto pelo coletivo. E é ali, no instante em que tudo poderia desabar, que o grupo firma o gesto mais bonito, seguir em frente, mesmo sem garantias, mesmo com dívidas, mesmo à margem. Porque o teatro, esse sim, vale qualquer risco.
Vendo Teatro – Incentivo Funcultura 2022/2023
Proponente, coordenadora e criadora de conteúdo: Aline Lima
Produção Executiva: Sabrina Pontual
Críticos teatrais: Luiz Diego Garcia
Cleyton Nóbrega
Lucas Oliveira
Gabrielle Pires
Coordenador crítico: Luiz Diego Garcia
Jornalista: Paulo Ricardo Mendes
Designer Gráfico: Allan Martins

VIVA O TEATRO!
VIVA!