Tá Tudo Ótimo | Crítica de “Tatu-do-bem”

por Vendo Teatro
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Foto: Edu Scofi

O sertão é do tamanho do mundo
Guimarães Rosa

A impressão que ficou durante “Tatu-do-bem” foi a de que eu estava assistindo a um clássico instantâneo, que esse espetáculo figurará em livros de história do teatro pernambucano como exemplo de criatividade e originalidade dentro dos moldes do teatro musical para a infância. Seu figurino e cenografia servirão como exemplos de eficiência e profunda versatilidade para representar a ludicidade da fauna nordestina; assim como o texto — político e irremediavelmente poético — de Lucas Carvalho ocupará em breve o panteão da dramaturgia do nosso estado. O elenco (e toda a equipe) registra em seus currículos artísticos um trabalho ímpar de estreia para o grupo Catalumari e os Giguiotes. São impressões, mas são também torcidas.

A Caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro e compreende cerca de 11% do território nacional e aproximadamente 70% da região Nordeste. Com uma grande biodiversidade, sua vegetação apresenta características adaptadas à escassez de chuva. A fauna da Caatinga escreve sua epopeia em versos de resistência e adaptação. Entre espinhos e sol ardente, o tatu-bola se transforma em escudo vivo, enquanto a asa-branca cruza os céus como símbolo eterno do sertão. O sapo-cururu carrega água no próprio corpo, obra-prima da evolução, e o raro soldadinho-do-araripe pinta o cenário com seu vermelho de alerta. Nas sombras das rochas, a onça-parda dita seu reinado silencioso. Cada criatura é um verso perfeito nesse poema escrito sob o sol e sangue, onde a adaptação vira arte e a sobrevivência se torna poesia. Mas quando uma espécie desaparece, é como se o vento levasse para sempre uma estrofe desse canto ancestral da terra.

O chão do sertão pode ser seco, mas de maneira alguma é estéril. Nele, pulsam histórias, cores e cantos que o espetáculo “Tatu-do-bem” traz para o palco com a delicadeza de um tatu-bola se enrolando e a urgência de um grito contra o silêncio. O espetáculo do grupo Catalumari e os Giguiotes é um convite — não só para os olhos, mas para o corpo inteiro — a mergulhar na Caatinga como quem mergulha em um rio de assombros oníricos.

Logo na chegada, o cenário já deixa claro seu potencial: um acampamento nômade de teatro, feito de panos, cores terrosas e uma musicalidade que parece brotar do chão. É ali que Andrezinho (Lucas Vinícius), um menino que torce o nariz para a arte dos pais, encontra Tuta e Teteu (Gio Miranda e Thayná Sena), dois tatus-bolas que são, ao mesmo tempo, guias e artistas de um mundo onde bichos dançam, cantam e resistem. A direção de Guilherme Mergulhão não nos leva apenas para a história — nos coloca dentro dela, como se fôssemos mais um viajante naquela jornada metalinguística. O diretor também aparece em cena vivendo o pavonesco Caco, um carcará vilão e cesarista.  

A humanidade do elenco transborda; seus integrantes não interpretam — habitam. Seus corpos são pontes entre o humano e o animal, entre o real e o onírico. O grupo não está em sincronia, mas em sintonia. Todos entregam tanta pluralidade e tanto, mas tanto apreço pelo que fazem, que não é a sincronia que fica, mas a profunda imersão nas texturas de cada pessoa no palco, tecendo um tecido interpretativo plural e igualmente poderoso justamente pelas suas diferenças. E talvez seja essa celebração de comunidades que respeitam as diferenças mas mantêm sua unidade que seja o grande trunfo do espetáculo, e principalmente do elenco: o mosaico de cores que forma uma imagem bela e potente.

Vale destacar o primor vocal do grupo — “Tatu-do-bem” não deixa a desejar no quesito musical. Não só as canções tornam o espetáculo mais lúdico e harmonioso, como a qualidade vocal empregada aqui é virtuosa. Letícia Penna, aqui como a Jandaia-amarela, é estupenda. Cantam, dançam, atuam e, aqui e ali, executam trechos quase circenses com muita qualidade e precisão. E dentro dessa malabarista fauna nordestina, o trabalho de Gio Miranda como Tuta é de encher os olhos. O tempo de comédia ímpar da atriz e sua expressão mais que corporal dão tanto frescor à cena quanto uma chuva desavisada — Tuta é gentil no seu ímpeto, carinhosa na sua força e imensamente generosa em seu desejo por igualdade.

A música, composta pelo grupo, é um personagem à parte: uma mistura de maracatu, coco e cantigas que ecoam como memórias ancestrais. E a cenografia, feita de materiais simples porém extremamente eficazes, ganha vida com a luz de Ruana Toledo, que pinta o chão de tons quentes, como se o sol do sertão estivesse sempre a pino. O figurino é um primor: lúdico e generoso com a imaginação — cada botão é um mimo; valioso é o artesanato empregado no trabalho do grupo.

Os animais da Caatinga não são figurantes; são personagens de uma revolução. Cada sagui, cada iguana, cada tamanduá-mirim carrega em si uma centelha de arte e luta, enquanto Caco, o carcará, paira como uma sombra autoritária. A peça não tem medo de ser política: fala de destruição, sim, mas também de reinvenção. E o faz com uma poética tão viva que até o mais duro dos corações se derrete diante da cena em que um tatu faz poesia — momento de brilho de Thayná Sena como Teteu — ou quando a cantoria da bicharada ilumina os olhos da plateia.

“Tatu-do-bem” é teatro como ato de cura. Uma cura delineada por artistas-educadores. Cura pela risada, pelo ritmo, pelo lembrete de que a arte não é só entretenimento — é resistência. Quando Andrezinho finalmente se entrega à magia daqueles bichos-artistas, é como se a plateia também se rendesse, criança ou adulto, àquela verdade simples e poderosa: a arte salva — a nós, à terra, aos mais céticos. E há de seguir o seu caminho de salvação já que sabemos tão primorosamente que “o sertão é do tamanho do mundo” e “Tatu-do-bem” é do tamanho do sertão.

Proponente, coordenadora e criadora de conteúdo: Aline Lima
Produção Executiva: Sabrina Pontual
Críticos teatrais: Luiz Diego Garcia
Cleyton Nóbrega
Lucas Oliveira
Gabrielle Pires
Coordenador crítico: Luiz Diego Garcia
Jornalista: Paulo Ricardo Mendes
Designer Gráfico: Allan Martins

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